“A primeira notícia documental que se tem da ilha é de 1502, quando a Armada de André Gonçalves e Américo Vespúcio, em 22 de janeiro daquele ano, ancorou junto à sua costa ocidental (atualmente conhecida como “Praia da Pouca Farinha”) fundando ao mesmo tempo o porto de São Vicente.
Assim, na primeira descrição de 1527, assinalava-se aquele que seria o Porto das Naus, da futura Capitania de São Vicente, junto à costa remansosa da ilha de Guaibê e na segunda assinalava a Praia do Góis (a praia da Ilha do Sol), hoje parte do município de Guarujá, onde primeiro fundeou Martim Afonso.
Estevam da Costa, vindo em 1535, como reza aquela escritura é, assim, o primeiro povoador e agricultor português documentado da ilha de Guaibê ou Santo Amaro, embora o nobre Jorge Ferreira o precedesse de dois ou três anos, fixando-se no Itapema (atualmente Vicente de Carvalho) sem escritura ou Carta de Sesmaria, ali se instalando com plantações e criações. São esses homens, portanto, os fundadores da colonização portuguesa da ilha de Santo Amaro, podendo qualquer deles ser apontado como primeiro povoador - Jorge Ferreira sem documentação conhecida, em 1532/33 e Estevam da Costa, em 1535/36, podendo-se afirmar, conseqüentemente, que a vida social e agrícola da Ilha do Sol teve início entre os anos de 1532 e 1536.
Estevam da Costa desapareceria do cenário vicentino ao fim de alguns anos enquanto que, Jorge Ferreira permaneceria pois, seria nomeado Capitão-Mór, Governador das Capitanias de São Vicente e Santo Amaro de 1556 a 1557 pela primeira vez e de 1567 a 1569 , pela segunda, deixando vasta prole de seu casamento com uma filha de João Ramalho.
Em 1699, ao fim da primeira grande indústria que fora a dos engenhos de açúcar, teria início em Santo Amaro uma indústria também categorizada, a do óleo de baleia, instalada no extremo norte insular.
No século XIX a ilha de Santo Amaro virou entreposto de escravos e, mesmo depois da proibição do tráfico, navios negreiros atracavam furtivamente na Praia da Enseada, que até hoje conserva alguns dos barracões usados para abrigar os africanos. A praia do Tombo era usada para descartar escravos velhos ou doentes.
A Praia e Sítio do Perequê, em meados do século XIX, era talvez a maior e mais famosa propriedade agrícola de toda ilha chegando até o rio da Bertioga.
Pertencia então a Valencio Augusto Teixeira Leomil, que, entre outros negócios, dedicava-se ao tráfico de escravos, chegando a ser processado, condenado e a fugir do Brasil por alguns anos para a prescrição da sentença. Esse Valencio Teixeira Leomil ficaria ligado à história do Guarujá moderno pelo seu tino comercial, pois pediria à Câmara de Santos, em 1890, a concessão por 70 anos para instalar uma linha de trens de ferro do estuário de Santos até o Guarujá e à praia do Perequê, sua antiga propriedade. Obtida a concessão, poucos meses depois já a venderia à Companhia Balneária da Ilha de Santo Amaro, da qual seria Diretor Fiscal nos próximos tempos e aí, já em nome desta Companhia, ele obteria duas grandes áreas de marinha, no estuário de Santos (entre os rios "do Meio" e "Santo Amaro") e, ao fim da "Praia do Guarujá", para utilização e instalações da nova empresa.
Daí se daria a aproximação com os fundadores da futura cidade de Guarujá, o Dr. Elias Chaves e seu primo, Dr. Elias Fausto Pacheco Jordão, que entre 1890 e 1892 era sócio-gerente da Companhia Prado Chaves, uma das maiores firmas de exportação de café na cidade de Santos, pertencente a Elias Chaves, que foi quem pediu a ele que planejasse a construção da cidade balneária.
Elias Chaves, após contratar com Valencio Teixeira Leomil a compra de sua concessão para estabelecimento de uma estrada de ferro na ilha de Santo Amaro, fundou a Companhia Balneária, na mesma ilha, torna Elias Fausto seu presidente e dando a Valencio a posição de Diretor Fiscal, organizando em seguida os planos maiores para instalação da Vila Balneária do Guarujá, sobre traçado de sua autoria.
A encomenda feita por Elias Fausto nos Estados Unidos (alguns afirmam ter sido no Canadá) consistia numa cidade completa, feita com o melhor pinho da Geórgia (equivalente ao pinho de Riga), um hotel com 50 quartos e mais várias salas, como a de refeições, bar, leitura (living e sala de estar); e ainda uma igreja, um cassino e mais 46 casas de residência, ou grandes chalés americanos, tudo desmontável e de grande qualidade (os chalés, em boa parte, existiam até a década de 60 em excelente estado de conservação e habitabilidade).
Enquanto não chegava dos Estados Unidos a vultosa encomenda, tratou o Dr. Elias Fausto de providenciar a construção de uma pequena estrada de ferro, que a princípio ia até a chamada Balneária, junto ao rio do meio, no estuário de Santos (hoje Ferry-Boat e princípio da avenida Adhemar de Barros) e mais tarde até o Itapema, à nova estação dos trens e das barcas ali construída. Para maior conforto dos passageiros e visitantes, ele mandou vir também duas amplas barcas a que deu os nomes de “Cidade de Santos” e “Cidade de São Paulo”, que inicialmente partiriam do Valongo, junto à Estação de Estrada de Ferro (Santos-Jundiaí) e aportariam ao portão da Balneária.
A estação de chegada da pequena linha férrea permaneceu durante mais de trinta anos junto à antiga Praia de Laranjeiras (ou Pitangueiras) quase em frente ao Hotel, passando depois para a rua Mario Ribeiro.
A inauguração desse hotel e da cidade de Guarujá verificou-se no dia 2 de setembro de 1893, com grande solenidade, vindo de São Paulo para esse fim o Presidente do Estado, Dr. Bernardino de Campos e seu ajudante de ordens, Luiz Alves da Gama Bastos, o secretário do interior, Dr. Cesário Mota Jr, o Bispo Dom Joaquim Arcoverde, Elias Chaves, seu primo Dr. Elias Fausto, presidente da Companhia e o Dr. Vicente de Carvalho (que havia sido pouco antes Secretário do Interior). A chegada dos visitantes e convidados verificou-se às 11 horas e trinta e cinco (da manhã) entre a alegria, as saudações e os foguetes dos representantes locais e muitos populares, principalmente pescadores de todas as praias vizinhas.
Para a montagem e direção inicial do hotel viera da Argentina Monsieur D’Huíque, o qual, com a competência e a prática que lhe apregoavam, organizou todos os serviços satisfazendo de fato e encantando toda a aristocrática freqüência do então denominado Grande Hotel de “La Plage”, com o conforto de uma grande hospedagem.
Pouco tempo, entretanto, durou o belo hotel de madeira. Violento incêndio o devorou certo dia e novo hotel de tijolos, pedra e cal foi levantado em seu lugar, o qual teria por gerente em seus primeiros tempos o ilustrado Dr. Eulálio da Costa Carvalho, homem de cultura, energia e tino administrativo, que nele se instalou com suas filhas, fazendo-o progredir e criar fama.
O estabelecimento hoteleiro teve vários gerentes de alto nível, que era como que a alma da pequena cidade balneária e por vezes com função diretiva também na Companhia, principalmente após a morte do velho Valencio Teixeira Leomil, ocorrida em 1900, aos 82 anos de idade. Como João Constantino Janacópulos, o celebrizado cidadão greco-brasileiro. Entretanto, os mais famosos chefes do Grande Hotel foram sem dúvida Daniel Souquiéres, fundador da célebre “Rotisseria Sportman”, em Santos e Vicente Rossatti, arrendatário do célebre Trianon, na avenida Paulista e do Bar Municipal, ambos em São Paulo, figura conhecidíssima e popular, Mestre de hotelaria e grande organizador de banquetes festivos e oficiais.
O Hotel, diga-se de passagem, era o grande animador do Guarujá, hospedando grandes figuras nacionais e internacionais, no comércio, na indústria, na política, nas finanças e animando o cassino de jogo, que era a usina financeira de toda a empresa e se apresentava então magnífico, cheio de lustres de cristal, vitrôs e dourados, estofados de couro da Rússia e tapetes da Pérsia. E dessa altura, em que o Guarujá esplendia em belezas naturais, o afreguezamento e a presença constante de notáveis figuras da indústria paulista como o Conde Francisco Matarazzo e depois seu filho, Conde Chiquinho, o Cavaleiro Ugliengo, o Dr. Ricardo Severo, o Comendador Nicola Puglisi, o Conde Crespi e tantos mais, que deram maior progresso ao Guarujá, chegando alguns, como o Comendador Puglisi, à direção da Companhia Guarujá e à construção dos primeiros palácios residenciais da estância.
As melhores famílias de Santos e São Paulo, entre 1920 e 1930, ocupavam a maioria dos chalés americanos e adquiriram terrenos no loteamento inicial e em outros que foram surgindo no corpo central da nova cidade, que já possuía um cinema, um pequeno parque zoológico no velho bosque junto ao morro, muitas charretes pelas praias e dois importantes recreios, o das pedras, onde está hoje o edifício Sobre as Ondas, e o das Astúrias, altos, pitorescos e famosos por suas peixadas.
Não são de esquecer, como figuras conhecidíssimas e progressistas do Guarujá dessa época intermediária, o velho José Maria Gonzalez (o Zé Maria) que funcionando em vários setores da Companhia, mas principalmente no Cassino e na movimentação da grande roleta, fora também o iniciador das construções no outro lado da vila, além da linha de ferro, onde mantinha um bar e mercearia e algumas casas, sendo uma aquela em que residia com sua numerosa família. Até o campo de futebol, movimentado pelos filhos (Guarujá Futebol Clube) parecia ser obra sua; o velho Souza, português, residente nas bases do Tejereba, estabelecido com bar e mercearia, senhor de algumas outras propriedades no local que tinha seu nome (Vila Souza) ; o coronel Maia Filho, conferente da Alfândega de Santos, dono de uma granja de leite (a “Leiteria Modelo”), em verdadeiro sítio comprado aos herdeiros da família Chaves; o velho Fairchild, americano de Santos, que passa por ter sido o primeiro morador da nova vila; Juventino Malheiros, que mais tarde seria o primeiro prefeito da Estância e mais alguns vultos representativos da primeira e da segunda épocas da Vila de 1893.
A nova fase ,definitiva, do Guarujá é recente e teve início com as primeiras graduações recebidas após sua elevação a Distrito de Paz ,por lei de primeiro de março de 1923 , abrangendo todo o território da ilha e, principalmente, com sua desagregação do município.
Em 30 de junho de 1926, a lei 21.84 assinada pelo Dr. Carlos de Campos, transformava o de Santos até constituir-se em cidade e município Guarujá em Prefeitura Sanitária, sendo seu primeiro prefeito Juventino Malheiros, que ali residia desde muitos anos, sucedido por outros ao correr dos anos. Em 1931, o coronel João Alberto Lins de Barros, interventor federal em São Paulo, aboliu a categoria pelo decreto número 4.844, de 21 de janeiro, integrando Guarujá novamente a Santos, até que três anos e meio depois, em meados de 1934, o Governador Armando Salles de Oliveira, pelo decreto 1.525 de 30 de junho de 1934, criou a Estância Balneária de Guarujá, nomeando como seu prefeito o Dr. Ciro de Mello Pupo. O Guarujá teve vários prefeitos sanitários tais como, o Dr. Artur Costa, o Dr. José Costa e Silva Sobrinho, o Dr. Álvaro Parente e outros, até 1947, quando a lei orgânica dos municípios, promulgada em 18 de setembro, passou Guarujá de Prefeitura Sanitária a Município, sendo seu primeiro governo municipal eleito para o período de 1948 a 1951 sendo eleito como primeiro prefeito o sr. Abílio dos Santos Branco (também fundador do Jornal "O Estância de Guarujá" em 25/09/49) e o sr. Leôncio de Camargo Filho como primeiro presidente da Câmara de Vereadores.
Em 1964 transformou-se em Comarca. Estava chegada então a fase áurea do Guarujá, cuja alavanca principal seria, de fato, embora pouco percebida, a construção da Via Anchieta, que se completaria com a Via Anhanguera na ligação e na aproximação de todo o “interland” paulista ao litoral do Estado.
A abertura da estrada de rodagem Guarujá-Bertioga, dobrando à esquerda na velha fazendinha do Perequê, de tanta tradição na ilha, junto ao velho solar e à antiqüíssima Capela dos Escravos (recentemente de propriedade da cantora Bidú Sayão, viúva de Walter Mocchi) atingindo o rio Bertioga e seguindo pela costa de dentro, através dos sítios de projeção no passado (Cachoeira, Ribeira, Jabaquara, Cortume, Ponte Grossa, São Pedro, Buracão, Pedrinha, J. Ferreira, Ponta Grossa, Laranjeiras e outros) até frontear a velha Bertioga, onde desde então passou a funcionar a balsa de travessia (ou Ferry-Boat) assim como a abertura de estradas melhores em todos os sentidos e direções, favoreceu a expansão turística e o aproveitamento total da Estância pela articulação num só corpo de todos os pontos magníficos, principalmente Iporanga de um lado, e praia do Bueno, Monduba e Guaiúba do outro.
Coincidiam os últimos fatos históricos de Guarujá com grande expansão litorânea do Estado, que atingiria Caraguatatuba, São Sebastião, Ilha Bela e Ubatuba, criando a necessidade de proteção aos pescadores, assustados pelo progresso e prejudicados por ele, afugentados de seus antigos lugares, vencidos pela valorização extrema e imprevista de suas terras, pelas técnicas modernas de pesca e pelas grandes organizações pesqueiras, em sua maior parte. |